O medo de ter uma vida sem sentido
Medo – No topo de um vulcão: o grito silencioso de Juliana Marins e o abismo que há dentro de nós.
Imagine estar no alto de um vulcão, ou uma montanha bem alta. O lugar mais alto que você tenha ido alguma vez. O vento frio cortando a pele e balançando os seus cabelos. O céu começando a clarear, aparecendo a primeira imagem de um amanhecer alaranjado e logo após um céu brilhante. A terra sob seus pés tremendo levemente.
Um cenário de filme. Mas era vida real. Era a vida de Juliana Marins. Uma brasileira, jovem, cheia de sonhos, em busca do que muitos evitam: o encontro com o desconhecido, com o mundo, com ela mesma.
Juliana era uma mulher comum — como eu, como você. Mas teve uma atitude incomum: ouviu o chamado que muitos de nós abafamos no barulho do dia a dia. Ela deixou tudo para trás e saiu para explorar o mundo. Mochila nas costas, coragem no peito, um brilho nos olhos e, talvez, algumas perguntas sem resposta na alma.
E foi na Indonésia, ao escalar o vulcão Rinjani, conhecido pelas suas chamas azuis e beleza hipnotizante, que Juliana deu seu último passo. Sozinha. No escuro. Com vontade. Com fé. Com pressa de viver.
A tragédia abalou o Brasil. “O que ela estava fazendo lá sozinha?” “Por que correr esse risco?” “Tão jovem, com tanta vida pela frente…”
Mas poucas pessoas perguntaram:
“O que será que ela estava buscando, lá no alto daquele vulcão?”
Como psicóloga, não consigo olhar para esse acontecimento apenas com os olhos da fatalidade. Vejo ali algo mais profundo. Quando se trata de um ser humano, temos várias camadas para avaliar as suas intenções. Juliana não era imprudente. Era inquieta.
Uma daquelas almas raras e intensas que não aceitam viver pela metade.
Vivemos em um tempo em que as pessoas andam anestesiadas. Trabalham no automático, mantêm relacionamentos rasos, sorriem nas fotos e choram no banho. Juliana foi na contramão: se lançou. Saiu da zona de conforto. Foi sentir. Foi viver de verdade.
Mas há um preço. Sempre há.
O topo do vulcão representa o ápice da busca humana por sentido. É o lugar onde enfrentamos nossos limites, nossos medos, nossas perguntas sem resposta. E Juliana chegou lá. Não apenas geograficamente. Ela chegou no cume da sua própria alma. E ali, diante da imensidão da natureza, talvez tenha sentido paz. Ou talvez tenha sentido medo. Talvez as duas coisas. Como todos nós sentimos diante da vida.
Há algo de profundamente simbólico nessa morte. Ela não aconteceu em uma rua movimentada, nem em um hospital. Aconteceu no alto. Sozinha. No silêncio. Como uma despedida poética e, ao mesmo tempo, brutal.
É impossível não pensar:
E se a vida dela foi mais intensa em poucos meses do que a nossa em anos?
E se a tragédia for nossa, que estamos vivos por fora, mas mortos por dentro?
E se o maior risco for nunca arriscar?
Não estou aqui para romantizar a morte. Mas para despertar a vida. A história de Juliana é um espelho. Ela nos obriga a encarar a pergunta que evitamos:
“Você está realmente vivendo… ou apenas existindo?”
Muitas pessoas morrem com o coração batendo. Vivas biologicamente, mas emocionalmente exaustas. Juliana, ao contrário, parecia determinada a viver com propósito, mesmo que não soubesse exatamente qual.
Talvez, no fundo, todos nós estejamos subindo um vulcão interno. Com pesos, dúvidas, culpas e sonhos não realizados. E talvez, ao olhar para Juliana, devêssemos parar de julgar suas escolhas e começar a refletir sobre as nossas.
Que a partida dela não seja em vão. Que seja um grito silencioso ecoando nas paredes do nosso medo. Que nos empurre, com amor e coragem, a viver uma vida que faça sentido.
Não amanhã. Agora.